domingo, 6 de abril de 2008

Alquimia do olhar

Carreras nos anos 90 - Foto: www.jcarreras.com

Alguém já disse que os olhos são espelhos da alma... bem, eu não poderia afirmar que sempre é assim, mas muitas vezes o olhar das pessoas denuncia, de fato, o que lhes vai por dentro. Há gente que consegue driblar essa porta de transparência que a natureza humana nos oferece e fingir, fingir muito; nesse caso, ou são excelentes atores ou criaturas que desafiam a sua própria humanidade.

No período de imersão em que me dediquei a entender Josep Carreras pela observação e atenção aos detalhes, uma coisa me ficou logo evidente: a profunda transformação no seu olhar.

Não falo de uma mudança gradual, que a idade e os diversos momentos da vida naturalmente trazem. Falo, sim, do espírito do olhar. Bem, são observações muito pessoais e portanto subjetivas. Não há em mim um analista escondido; são impressões de alguém que procura ir um pouco além das aparências.

As fotografias do Josep Carreras jovem e no auge do sucesso, tanto em papéis operísticos como em capas de discos e instantâneos pessoais, mostram um olhar flamejante, desafiador, eu diria até impaciente, por vezes; dá a impressão de uma busca constante, ou de um estado de alerta, como se estivesse permanentemente em guarda.

Já o olhar de Josep Carreras após a situação limite que viveu com tanta coragem e determinação é muitíssimo diferente. Sugere uma paz profunda, um estado de alma acima das pequenas coisas do dia a dia, uma sabedoria intuída, uma visão longínqua que discerne muito bem entre o que é essencial e o que é dispensável.

Nada do que suspeito - faço questão absoluta de repetir - é passível de ser afirmado. São percepções. Os olhares de Josep Carreras - em fotos, filmes, vídeos, nos encontros pessoais, nas apresentações a que tive a chance de assitir - traduzem sua força pessoal, sua classe, sua delicadeza, a sinceridade evidente no cantar, e nos anos recentes uma leveza de alma que, pelo menos a mim, inspira e eleva.

Fico feliz por constatar, a cada vez que o encontro, que esse olhar límpido e verdadeiro, o olhar do encontro consigo mesmo, está cada vez mais presente. E bonito de se ver.

Um comentário:

Sombr|A|rredia disse...

[...]
"O que sei de ti é olhar e não te ver,
é fuga abrupta, mar que se fecha sob pálpebras,
pupila violenta, larga lâmina,
facilidade pura
sem rede, sem degraus: só verde, extensa,ramificada parede de sol,
[...]

António Ramos Rosa
in
Animal Olhar