quinta-feira, 10 de abril de 2008

Capitulo Primeiro - Buenos Aires, julho de 1991

Teatro Colón - Buenos Aires

Deu no Jornal do Brasil, na Coluna do Zózimo: "Josep Carreras estará em Buenos Aires em julho, para dois concertos, etc. e tal. " Ah, bons tempos em que tudo se sabia pelo Jornal do Brasil!
Aquelas duas linhas de notícia pararam o ar respirável em torno de mim. Buenos Aires, dadas as proporções, até que é perto... muito perto, pensei. Senti então a minha velha e incontrolável sede de aventura correr nas veias de novo. E percebi que simplesmente tinha de ir.
Mas como? E o trabalho? E o dinheiro? E isso, e aquilo? Pois fui logo tratando de dar respostas satisfatórias a todos os "E..." que me surgiam na mente: pedi 10 dias de férias antecipados ao meu chefe, com o correspondente pagamento, o que me daria condições de pagar a passagem e os ingressos. Telefonei para os pais de Cláudia, uma grande amiga argentina do tempo do intercâmbio que já tinha estado em minha casa, e garanti a hospedagem.
Até aí tudo bem, mas havia mais um "E...": como conseguir um ingresso antes de chegar lá?
Resolvi telefonar diretamente para o Teatro Colón, numa época em que qualquer ligação internacional era impensável. E foi aí que começou o milagre argentino que me colocou, pela primeira vez, diante de Josep Carreras.
Atendeu-me uma senhora alemã, de nome Jutta Olsson, que presidia a Fundação Teatro Colón e logo simpatizou com meu sobrenome germânico. Por sorte ambas tínhamos limitações quanto ao idioma, e houve compreensão de parte a parte. A Sra. Olsson entendeu muito bem as minhas ansiedades e pronunciou as palavras mágicas:
- Você quer que eu reserve os seus ingressos?
(Ah, meu Deus, era tudo o que eu queria!).
Respondi que sim e perguntei como devia mandar o dinheiro.
- Não se preocupe, você me paga quando chegar.
Difícil acreditar que alguém, por telefone e sem conhecer a outra parte, pudesse agir com tanta consideração. Mas era isso mesmo, eu tinha ouvido direito. Ela ia guardar meus ingressos e eu poderia pagá-la pessoalmente, quando chegasse à cidade.
Tratei então das passagens, do passaporte que estava vencido, enfim, de tudo o que precisava. Surgiu então um novo dilema: com que roupa eu vou? Essa coisa de roupa pode até parecer um detalhe sem importância, mas as pessoas não paravam de me assustar:
- Olha, Buenos Aires não é o Rio, não! Lá é tudo muito formal! Se você não estiver vestida de acordo, não deixam você entrar!
Ai, que medo. Não tinha roupa! Bem, pelo menos não no nível que diziam que eu ia precisar. Procurei então uma grande amiga, Carminha Carrera (por incrível que pareça), que vendia roupas, e expliquei o problema.
Carminha ficou em silêncio, refletindo. E depois me disse:
- Deixa comigo! Já tenho a solução: vou te alugar um vestido de festa! - e mandou-me voltar no dia seguinte, à noitinha.
Na hora marcada, claro, lá estava eu, assaltada por mil dúvidas. E se não servisse? E se eu não gostasse? E se fosse caro demais? (Era a vez dos "E se...").
Minha amiga recebeu-me, foi até o quarto e trouxe, no cabide, uma roupa deslumbrante, em tons de rosa antigo com discretos bordados, com um sapato forrado no mesmo tecido.
Olhamo-nos longamente, num doce silêncio de águas, a generosidade e o entendimento espalhados no ar. Paguei, guardei cuidadosamente a preciosidade e fui em busca del aire de Buenos Aires. E de Carreras, enfim.

2 comentários:

Sombr|A|rredia disse...

....e lá estava o Universo a "conspirar" em teu favor :)

Maurette disse...

É verdade, querida. E como conspirou!

Bj